Artigo

“Quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado” (Mt. 23,12)
 
É na oração que o ser humano exprime aquilo que é mais íntimo e mostra como ele se relaciona com os outros e com Deus. O risco do “farisaísmo” é subir o pedestal da “perfeição” e do “legalismo”, distan-ciando-se do amor e da misericórdia de Deus; com isso, cai no orgulho religioso, petrificando-se num ritualismo sem vida..., e sem compromisso com a vida. No seu íntimo não há espaço para a conversão.

A consequência é vida dupla: a fachada externa perfeita que esconde um interior frio e insensível, resis-tente   a reconhecer sua realidade pobre e limitada; ele acha que pode impressionar Deus com suas qualida-des aparentes e seus sacrifícios e boas obras puramente formais, sem extirpar de seu coração o orgulho e o desprezo pelos outros.

Os “fariseus” são os típicos representantes de uma espiritualidade legalista, distante da realidade huma-na. Eles não percebem que, observando detalhadamente todas as leis, não estão pensando em Deus, mas, sim, em si mesmos. No fundo, não tem necessidade de Deus. Acreditam que, cumprindo perfeitamente todos os mandamentos por suas próprias forças, tem o direito de exigir de Deus uma recompensa. Estão menos interessados no encontro com Deus do que no cumprimento minucioso das normas, leis e ideais que se impuseram a si mesmos.

De tanto se fixarem sobre as leis, assumem o papel de juiz para julgar o com-portamento dos outros.

Ao se identificarem com uma imagem idealizada e distante de si, “os mestres da Lei e os fariseus” se tornam cegos para a sua própria “terra”, ou seja, para a sua condição humana.

O orgulho manifesta uma profunda ignorância da natureza humana. De fato, o orgulho e a soberba são pai e mãe de todos os vícios que bloqueiam o coração e travam a vida humana.

Mais ainda, o orgulho isola a pessoa e a afasta da comunidade humana.

Ao não renunciar à orgulhosa virtude da auto-afirmação e ao não confessar sua falibilidade humana, um muro intransponível a segregará, impedindo-a de sentir-se viva, de sentir-se gente no meio de gente.

Na pregação e na prática de Jesus nos deparamos com uma espiritualidade que vem de baixo, que brota do seu encontro com a fragilidade humana. Ele, consci-entemente, se compromete com os publicanos e pecadores, com os pobres e doentes... porque sente que eles estão abertos ao amor de Deus. Os “justos” (praticantes da lei), pelo contrário, vivem centrados em si mesmos e são aqueles que entram em permanente conflito com Jesus.

Jesus nos revela que basta redescobrir o caminho da humildade (do húmus), bem no fundo de nós mesmos: este é o lugar da oração. Só ali, no mais profundo de nossa condição argilosa, é que a verdadeira oração pode se fazer ouvir.

“Descer” à nossa realidade, significa considerar a experiência da impotência e do fracasso como o lugar da verdadeira oração e como chance de chegarmos a uma nova relação pessoal com Deus.

E quanto mais baixo for o ponto de partida, tanto mais alta ela vai subir...

A palavra latina “humilitas” está relacionada com “húmus”, com terra.

Ser “humano” é reconhecer-se terroso, argiloso; é por essa razão que somos todos irmãos já que somos todos feitos de argila. Somos “argila” e devemos cuidá-la, cultivá-la e fornecer-lhe as condições para mantê-la aberta ao Transcendente. A “humildade” é a própria essência do ser humano; ela é a própria condição para ser aquilo que se é: para ser “humano”. Essa é a verdade de nossa humanidade.

A humildade, portanto, é o reconciliar-nos com a nossa condição terrena, é ter contato com o chão de nossa existência, com o mundo de nossos sentimentos, necessidades e paixões, com o nosso lado som-brio... para que o salto para Deus possa acontecer.

Em outras palavras, a transformação interior só pode acontecer quando tudo quanto está em nós é refe-rido a Deus, ao Deus que nos ama e nos conduz à verdade de nossa existência, ao Deus que nos olha com bondade e compaixão e que vê até o fundo de nossos pensamentos e sentimentos.

A humildade é o coração mesmo da mensagem bíblica; ela é a transparente verdade que enobrece e engrandece, porque dá a exata medida de nossa fraqueza e limitação. Ela é o segredo da paz interior.

“A humildade é a verdade” (S. Tereza d’Ávila); ser o que se é, nada acrescentar, nada tirar, aceitar seu húmus, sua condição terrosa, suas grandezas e seus limites; maravilhar-se de que esta argila infinitamente frágil seja capaz de inteligência e de amor.

A humildade é a coragem de aceitar a verdade sobre si mesmo; ela é o lugar onde nós podemos ir ao encontro do Deus verdadeiro.

A humildade é acolher os próprios limites e aceitar o Infinito que está presente nesses limites.

A humildade é, justamente, aceitar ser argila no qual se manifesta a Luz.

A humildade é reconhecer Deus como Absoluto e a verdade de nosso ser.

Portanto, o caminho para Deus passa pela experiência das próprias carências e limitações, pela fragilidade, pelas tendências sombrias, pelos impulsos de poder e posse...

Tendo a coragem de passar por estas experiências sombrias, o sentimento se transforma, o desejo se expande, e sobre as fragilidades manifesta-se o Deus que sustenta e liberta, o Deus que ama e que ilumina.

Ser humilde é pura e simplesmente ser pessoa humana, isto é, não pretender tomar-nos por Deus.

Não tomar-nos por Deus nos torna capazes de recebê-Lo, de viver com Ele e com-viver com os outros.

É no esvaziamento ou na purificação do nosso “ego” que vai revelar-se em nós o Espaço que contém todas as coisas. Quando o “pequeno eu” desaparece, pouco a pouco vamos nos abrindo ao Outro que nos fundamente e n’Ele repousamos.

Como não tem nenhuma pretensão, o humilde conhece a tranquilidade e a paz, não espera mais do outro nenhum sinal de admiração ou de reconhecimento para ser ele mesmo. Na oração:  Jesus Cristo acolheu tudo quanto é humano e desta maneira o redimiu. Ele “subiu” ao céu porque “desceu” às profundezas da terra.

E assim também nos mostrou o caminho. Não podemos subir se não estivermos dispostos a descer com Cristo ao nosso “húmus”, às nossas sombras, à condição terrena, ao inconsciente, à nossa fraqueza humana. Nós “subimos” a Deus quando “descemos” à nossa humanidade. Este é o caminho da liberdade, este é o caminho do amor e da humildade, da mansidão e da misericórdia.

O coração, a quem não é estranho nada do que é “humano”, alarga-se, enche-se do amor de Deus, que transforma todo o humano. O caminho da humildade é o caminho da transformação.

Ao fazer, junto com Jesus Cristo, o caminho da “descida”, o ser humano vai ao encontro de sua realidade e coloca-se diante de Deus para que Ele transforme em amor tudo quanto existe nele, para que ele seja totalmente perpassado pelo Espírito de Deus.

 
Por: Pe. Adroaldo, sj