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De início, convêm relembrar que toda missão tem mão dupla. Tocamos aqui em uma dimensão que, não raro, é dada por descontada, ou pouco levada em conta. Que entendemos por “missão de mão dupla”? Do ponto de vista da história do cristianismo, o binômio missão e evangelização é indissociável. O que significa que, na visão cristã, todo missionário é por natureza aquele que anuncia os valores do Evangelho, portanto, um evangelizador.

Levar o Evangelho?


 A esta altura, no que se refere à ação missionária, tropeçamos com um primeiro desafio.  Muitas vezes confundimos a noção de evangelizar com aquela de “levar o Evangelho”.  Evangelho, porém, em sua dinâmica viva e profunda, não se leva nem se traz, se vive!  Sem dúvida, o conceito de evangelizar comporta o anúncio explícito da Boa Nova de  Jesus Cristo. Mas não podemos esquecer que, mais do que as palavras, discursos e documentos, é o testemunho exemplar que verdadeiramente evangeliza.

A isso vale acrescentar que, de acordo com os princípios da Doutrina Social da Igreja, no coração de cada pessoa e no coração de cada cultura existem sementes do Verbo Encarnado. Em outras palavras, os valores evangélicos, implícita ou explicitamente, em maior ou menor grau, fazem parte do patrimônio cultural e religioso de cada povo, raça ou nação. Conclui-se que, em lugar de “levar ou trazer”, evangelizar constitui antes a tarefa de desvendar e reativar tais valores. Não poucas vezes, no processo histórico da evangelização, os missionários entenderam mais conveniente (ou foram forçados) a calar sobre o nome e a obra de Jesus Cristo, para redescobrir seus valores, em plena ação, nas manifestações éticas e religiosas da população “a ser evangelizada”.


Diálogo evagelizador-evangelizando


Emerge, então, um segundo desafio. Evangelizador não é aquele que possui um pretenso “depósito de verdades”, digamos assim, encarregando-se de distribui-las a quem, pretensamente, se encontra na ignorância. Pior ainda quando a civilização cristã, em parceria com as forças do Estado, teve a pretensão de levar luz ao reino da barbárie! A história registra uma série de equívocos (para não falar de agressões e mortes) devido a essa concepção “bancária” da formação-educação em geral e da evangelização em particular, utilizando a terminologia de Paulo Freire, em suas obras Educação como prática da liberdade ou Pedagogia do Oprimido.

Toda cultura, ainda que de forma diferenciada, é permeada de luzes e sombras, de avanços e recuos. Em princípio, ninguém se encontra completamente nas trevas ou na ignorância, da mesma forma que ninguém tem o monopólio da verdade. Disso resulta a necessidade de empenhar-se por uma “relação progressivamente dialógica” (ainda na expressão de Paulo Freire), a qual, no fim das contas, enriquece ambas as partes em jogo. Em termos mais concretos, ninguém é somente evangelizador e ninguém é somente evangelizando. Todos temos algo a oferecer e algo a receber, o que quer dizer que todos somos, ao mesmo tempo evangelizadores e evangelizandos. Instala-se um processo de evangelização circular, dinâmico e dialético, que se integra, se entrelaça e se complementa numa evolução e crescimento recíprocos e em forma espiral.

Evangelização como encontro


E chegamos, assim, a um terceiro entrave. Mais do que as pessoas, é o encontro que evangeliza. De um lado, o evangelizador-evangelizando, a partir dos próprios valores, provoca o encontro; de outro lado, por parte do evageliando-evangelizador, abre-se a oportunidade de expressar-se e de comunicar suas tradições, confrontando igualmente os próprios valores culturais e religiosos. Descortina-se, com isso, um diálogo não tanto de palavras, e sim de sentimentos e emoções, de vida a vida, alma a alma. O encontro revela-se o lugar teológico-espiritual de uma evangelização verdadeira e profunda, não apenas formalmente catequética ou proselitista. Isso tanto para o evangelizador quanto para o evangelizando, se é que, a essa altura, ainda podemos distinguir um do outro.

Em tal processo, inútil procurar um lado ativo, pretensamente iluminado, e um lado passivo, numa pretensa escuridão. Ambos se tornam protagonistas de um único processo de evangelização, ambos têm algo a dizer e a ouvir. Mais ainda, na medida em que o processo se aprofunda em franqueza, limpidez e transparência, ambos são chamados a purificar a forma e os conteúdos da própria cultura, superando-a de seus vícios ocultos (contravalores) e reforçando os valores. O confronto, se e quando acompanhado de um diálogo aberto e maduro, torna-se uma forma viva de depuração. Desnecessário repetir que semelhante processo tem necessariamente mão dupla.

Jesus e o poço


A “imagem do poço” ilustra bem esse desafio do processo de evangelização. No poço, água e sede se encontram e se complementam. No episódio sobre o encontro entre Jesus e a samaritana (capítulo 4 do quarto Evangelho), no início, o evangelizador revela sua sede, enquanto a evangelizanda oferece água. No decorrer do diálogo, porém, a situação se inverte: água e sede aparecem como símbolos de uma água e de uma sede mais profundas. O dom de Deus que preenche a falta de sentido de quem se afasta de sua face ou rejeita seu projeto de salvação. O autor do relato deixa simbolicamente claro que ninguém é somente água e ninguém é somente sede. Da mesma forma, ninguém se revela água o tempo todo e ninguém suporta o tempo todo o vazio da sede. Do ponto de vista sócio-cultural, qualquer mistura que inclui inevitavelmente água e sede, valores e contravalores, luzes e sombras, fraquezas e potencialidades, sofrimento e esperança.

Disso resulta a necessidade do poço, do encontro. Este, convém insistir, desencadeia a oportunidade do processo evangelizador. Um rápido olhar às páginas dos quatro Evangelhos mostram a “prática evangelizadora” de Jesus, se nos é lícito falar nestes termos. Seu método é simples e claro: “percorre aldeias e cidades” (Mt 9,35-38), tratando de abrir poços/encontros. Grande parte de tais poços/encontros , vale notar, tinham um caráter proibitivo frente à rigidez das leis, as quais, ao longo do tempo, se haviam tornado fossilizadas e excludentes. O profeta de Nazaré supera os preconceitos e discriminações culturais e religiosas de sua época e vai diretamente ao encontro da pessoa humana. A partir dela e do diálogo com seus valores mais profundos, revela a Boa Nova do Pai que liberta, enriquece e salva.



Por: Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS, é Conselheiro e Vigário Geral dos Missionários de São Carlos.

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