Artigo


O papa Francisco convocou o Ano jubilar da Misericórdia e recomendou que durante esse tempo realizássemos as obras de misericórdia. “É meu vivo desejo que o povo cristão reflita, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina". O santo padre continua: "A pregação de Jesus apresenta-nos estas obras de misericórdia para podermos perceber se vivemos ou não como seus discípulos. Redescubramos as obras de misericórdia corporal: dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos. E não esqueçamos as obras de misericórdia espiritual: aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas molestas, rezar a Deus pelos vivos e defuntos”. (Papa Francisco, O Rosto da Misericórdia, 15).

É preciso abrir os olhos e reparar ao nosso derredor para perceber os chamamentos que Deus nos faz através daqueles que nos rodeiam. Não podemos viver de costas para as multidões, encerrados em um pequeno mundo fechado sobre nós mesmos. Não foi assim que Jesus viveu. 

Os Evangelhos nos falam da sua misericórdia, da sua capacidade de participar na dor e nas necessidades dos outros: compadece-se da viúva de Naim, chora pela morte de Lázaro, preocupa-se com as multidões que o seguem, compadece-se sobretudo dos pecadores e dos que caminham pelo mundo sem conhecerem a luz da verdade. Ao desembarcar, viu uma grande multidão e compadeceu-se deles porque eram como ovelhas sem pastor. E começou então a ensiná-los demoradamente.

As obras de misericórdia espirituais:
1) Aconselhar os indecisos
Um dos dons do Espírito Santo é o dom do conselho. Por isso, quem se dispor a contribuir com um conselho deve, primeiramente, estar em sintonia com Deus, pois não se trata de dar opiniões pessoais, mas de aconselhar devidamente a quem necessita de uma ajuda. Aconselhar é o dom de orientar e ajudar aos que necessitam de auxílio. Jesus orientou e aconselhou a não sermos cegos guiando cegos (Mt 15,14), e que também, primeiro, tirarmos a trave do nosso olho, para depois querer tirar o cisco do olho do irmão (Lc 6,39). Apesar da força deste conselho e o alerta de Jesus, não podemos nos eximir de dar bons conselhos àqueles que necessitam. Para que isto aconteça é preciso mergulhar na graça do Espírito Santo, para perceber os sinais de Deus que nos auxiliam na compreensão dos fatos e o necessário discernimento de vida. Hoje esta obra de misericórdia remete à Pastoral do Aconselhamento.

2) Ensinar os que não sabem
Consiste em ensinar os ignorantes em qualquer matéria, também sobre temas religiosos. Este ensino pode ser levado a cabo através da palavra, de escritos, por qualquer meio de comunicação ou diretamente. Diz o Livro de Daniel: “Os que ensinam a justiça ao povo, brilharão como as estrelas pela eternidade sem fim” (Dan 12,3b). Ensinar ou instruir não é simplesmente transmitir conhecimentos. É também ensinar os valores do Evangelho, formar na doutrina e testemunhar bons costumes éticos e morais. A história da salvação é sem dúvida uma instrução contínua e ininterrupta da parte de Deus para com a humanidade. Deus se revela e instrui o povo pelos patriarcas, profetas e, plenamente, em Jesus Cristo que escolheu pessoalmente doze homens para os instruir de forma particular. Já no final de sua presença com eles ainda garante: “Há muitas coisas para vos revelar, mas que não podereis compreender agora, por isso vos mandarei o Espírito da verdade que vos levará à plena verdade” (Jo 16,12-13a). À comunidade dos Colossenses Paulo diz: “A palavra de Cristo permaneça em vós com toda sua riqueza, de sorte que com toda sabedoria possais instruir e exortar-vos mutuamente” (Col 3,16a). Hoje, esta obra de misericórdia é cultivada particularmente por meio de cursos de formação, pregação, catequese, enfim, por todo o conjunto de ações e atividades próprias ao processo da Iniciação à Vida Cristã.

3) Admoestar os que erram

Esta obra de misericórdia refere-se acima de tudo a situações de pecado. De fato, outra maneira de formula
r esta obra seria: corrigir o pecador. A correção fraterna é explicada pelo próprio Cristo no Evangelho de Mateus: “Se o teu irmão pecar, fala com ele a sós para o corrigir. Se te escutar, ganhaste o teu irmão.” (Mt 19,15-17). Trata-se de admoestar e corrigir, mas com mansidão e humildade. Nem sempre é fácil fazê-lo, mas podemos nos lembrar do que diz o apóstolo Tiago no final da sua carta: “Aquele que converte um pecador do seu erro salvará da morte a sua alma e obterá o perdão de muitos pecados” (Tg 5,20). Vale lembrar que a respeito do que está bem pode-se falar, afirmar, comentar e divulgar se conveniente for. Mas a respeito do que está mal ou errado, a abordagem se faça antes a partir de questionamentos ou perguntas, a saber: como que isto aconteceu, o que foi que te levou a dizer ou fazer isso e aquilo, pois não somos nós que convertemos ou corrigimos a pessoa. A conversão, a mudança ou correção há de vir a partir da própria pessoa. Hoje esta obra de misericórdia é praticada, particularmente, por meio da pastoral da reconciliação ou penitencial, segundo a tradição.

4) Consolar os aflitos
Esta obra de misericórdia, muitas vezes, vai a par com a de dar “um bom conselho” como ajuda para superar determinadas situações de dor ou tristeza. Acompanhar os outros, particularmente em momentos mais difíceis, é pôr em prática a compaixão de Jesus com a dor alheia. Um exemplo vem no Evangelho de Lucas onde se narra a cena do filho da viúva de Naim: “Quando estavam perto da porta da cidade, viram que levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva; e, a acompanhá-la, vinha muita gente da cidade. Vendo-a, o Senhor compadeceu-se dela e disse-lhe: ‘Não chores’. Aproximando-se, tocou no caixão, e os que o transportavam pararam. Disse então: ‘Jovem, Eu te ordeno: Levanta-te!’ O rapaz sentou-se e começou a falar. E Jesus o entregou à sua mãe” (Lc 7,12-16). Quanto a aliviar o sofrimento dos aflitos vale ainda lembrar o empenho de Jesus em consolar Marta e Maria na morte de Lázaro (Jo 11,19). Paulo, fiel apóstolo de Jesus, começa sua segunda carta aos Coríntios dizendo: “Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias, Deus de toda a consolação, que nos conforta em todas as nossas tribulações, para que, pela consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus, possamos consolar os que estão em qualquer angústia!” (2Cor 1,3-4).  Ou ainda: “Consolai-vos mutuamente e edificai-vos uns aos outros” (1Tes 5,11). Hoje, esta obra de misericórdia bem que pode ser vivenciada pela expressão: “oferecer o ombro para quem chora”.

5) Perdoar as ofensas

Esta obra de misericórdia pode facilmente ser cultivada a par da correção fraterna. No Pai Nosso dizemos: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”, e o próprio Senhor esclarece: “Se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai celeste também vos perdoará, mas se não perdoardes aos homens, tampouco o vosso Pai vos perdoará” (Mt 6,14-15). Se nós não perdoamos, estaremos a impedir que o perdão de Deus aconteça. No diálogo com Pedro, Jesus ensina que devemos perdoar sempre e sem limites (cfr Mt 18,21-22). Um particular exemplo de perdão no Antigo Testamento é o de José do Egito, que perdoou aos irmãos pelo fato de terem tentado matá-lo e depois vendê-lo. “Não vos entristeçais, nem vos irriteis contra vós próprios, por me terdes vendido para este país, porque foi para podermos conservar a vida que Deus me mandou para cá, à vossa frente” (Gn 45,5). E o maior perdão, segundo o Novo Testamento, é o do Cristo na cruz, que nos ensina: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). O apóstolo Paulo também nos exorta: “Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente toda vez que tiverdes queixas contra os outros. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós” (Col 3,13). Negar o perdão nos levaria a um ato de injustiça com Deus, conosco e com os irmãos.

6) Suportar com paciência as fraquezas do próximo

A paciência face aos defeitos dos outros é uma virtude e é uma obra de misericórdia. No entanto, quando ultrapassa a medida, implica uma advertência ou chamada de atenção.  Se por um lado se trata de suportar com paciência os que estão próximos a nós, com todos as suas limitações, fraquezas, defeitos e misérias, por outro lado, não quer dizer que devemos nos omitir de orientar, encorajar, servir de suporte e oferecer oportunidades para que tais limitações e fraquezas sejam superadas. Neste sentido o apóstolo Paulo escreve: “Peço-vos, irmãos, corrigi os desordeiros, encorajai os tímidos, amparai os fracos e tende paciência para com todos” (1Tes 5, 14). Ainda, segundo o apóstolo, “quando estamos fortes, devemos suportar as fraquezas dos que são fracos, e não agir a nosso modo” (Rm 15,1), lembrando o servo de Javé que “tomou sobre si as nossas fraquezas e carregou nossas dores” (Is 53,4). De mais a mais, esta obra de misericórdia nos remete, por sua vez, também ao tema do “limite”. Não deixar passar tudo o que vem acontecendo, nem ser trouxa, mas ser firme e colocar os devidos limites, por exemplo: “agora chega e que tenha sido a última vez!”

7) Rogar a Deus pelos vivos e os mortos
O apóstolo Paulo recomenda rezar por todos, sem distinção, também por governantes e autoridades, pois, “Ele quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,2-3). Na oração sacerdotal Jesus rogou a Deus pelos seus e por todos que em todos os tempos viriam a ser seus discípulos (cfr Jo 17). Em várias outras passagens dos Evangelhos Jesus se retirava para rezar (Mt14,23; Mt 26,36; Mc 6,46; Lc 3,21; Lc 5,16). Na Carta aos Efésios, Paulo recomenda que se intensifiquem as súplicas e pede por ele oração (cfr Ef 6,18-19). O ser humano, é sempre mais preocupado com suas próprias necessidades, mas através desta obra de misericórdia espiritual, somos exortados a rezar pela humanidade, rezar por aqueles que nem conhecemos, rezar pela reparação e expiação dos pecados do mundo, pela conversão dos pecadores, pelos que sofrem e pelos que se recomendam às nossas orações. Por fim, rezar pelos mortos é prática que se apoia na oração pelos defuntos, da qual já a Sagrada Escritura fala: “Eis por que ele (Judas Macabeu) mandou oferecer esse sacrifício expiatório pelos que haviam morrido, a fim de que fossem absolvidos de seu pecado” (2Mc 12,46). Também a Igreja, desde os primeiros tempos, sempre honrou a memória dos defuntos e ofereceu sufrágios em seu favor, em especial o sacrifício eucarístico, a fim de que, purificados, eles possam chegar à bem aventurança eterna. A Igreja recomenda também as indulgências e as obras de penitência em sufrágio das almas do purgatório para alcançarem o repouso eterno, o refrigério e a luz que não se apaga (CIC 1032).

Disse Jesus, de quem nos esforçamos para sermos discípulos: “Sede misericordiosos como vosso Pai do céu é misericordioso” (Lc 6,36). Ainda, em outro momento reafirmou citando o Profeta Oséias: “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Mt 9,13); e nas bem-aventuranças afirma: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7). 

Ter misericórdia é ter compaixão e solidariedade para com a necessidade do outro. Mais do que só dar esmola, é descer até a carência física, espiritual e material da outra pessoa, envolvendo-a com cuidado, lhe restaurando a honra e elevando-a à dignidade de vida.

*Editor do jornal “O Mensageiro”. Publicado no jornal O Missioneiro, diocese de Santo Ângelo (RS), edição de junho de 2016.